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Cerrado, acervo macp - premio de artes plasticas marcantonio villaca - funarte
135x220cm
acríica sobre tela

Exposição realizada no MACP - Museu de Arte e Cultura Popular de Cuiabá/MT 

abril 2009

A natureza sob o olhar de Miguel Penha por Serafim Bertoloto

 


O artista com sua origem indígena e a vivência direta com a paisagem desenvolveu um gosto pelo naturalismo e, tal quais os viajantes que por aqui passaram no Século XVIII, como a expedição Langsdorff, procura representar a paisagem com fidedigndade. No afã do mimetismo e na constante busca da apreensão da natureza que remonta à história do homem ou no desejo embrionário de se equiparar ao criador, os artistas trascendem os limites da própria razão e, para libertar o espírito dessa obsessão, vêem-se desenvolvendo técnicas, elaboradas fórmulas, aprimorando os conhecimentos e tentanto suprir essa necessidade imanente do aprisionamento das formas da natureza o que irá incidir em um surpreendente e inesgotável fazer artístico e estético. Se pensarmos que a paisagem é certa relação entre um fenômeno topográfico e climático e determinado pela cultura; relação entre um grupo de
circunstâncias geográficas e um grupo social, uma representação da paisagem é uma construção mental, um ato de cultura.

 

Não há paisagem sem uma representação da paisagem, sem a projeção de uma escala de valores. Valores estes que Miguel com sua origem sertanista sabe muito bem como explorar no ato da representação.

 

Normalmente suas obras são idealizadas a partir de um forte aprisionamento técnico. Sua construção mimética favorece certa alienação, do olhar, onde o obervador fica engessado a uma leitura linear e estanque da imagem projetada.


Os signos icônicos que representam os elementos da natureza por semelhança não permitem ao expectador ir além de um espelhamento dessa mesma natureza, não abre expectativa para a criação de novos diagramas mentais e nem possibilita a projeção de metáforas, exceto a contida na própria condição da reprodução.

 

Porém, nas obras de Miguel a paisagem recebe um tratamento espacial onde a amplitude sugerida provoca uma expansão
da realidade, na dimensão do céu o branco extrapola, a volumetria do segundo plano criando uma perspectiva agradável e surreal.

 

O retorcido da vegetação, o Algodãozinho do cerrado cria movimentos cênicos onde os personagens parecem dançar com a força do vento. Algumas árvores devido ao contorcionismo e ao emaranhado dos galhos flutuam no espaço por sobre a vegetação rasteira.


No afã de um aprimoramento técnico, a natureza vem sendo representada mimeticamente pelos artistas em toda a história da arte. Pois segundo Ribon “o homem já não se sente um estranho em relaçao à natureza; a arte manifesta que a natureza se reconhece no homem e o homem na arte em que a natureza é o que o homem tem mais perto de si” (RIBON, 1991, p.43). Nesse sentido Miguel que educou seu olhar vislumbrando e sentindo - no contato direto - a natureza em toda a sua plenitude, só podia ficar condicionado a este seu representar, pois “ a natureza se contenta com habitar o imaginário do artista, mas antecipa-se e a arte, fecundada por ele, é uma antecipação da natureza: a natureza está projetizada na arte” (ibid., p.44). A natureza matogrossense profetiza-se na ótica e nas
mãos do artista.


Podemos dizer que toda paisagem é uma experiência onírica Os Buritis, guardiões das paisagens se enunciam nas obras, têm uma estrutura vegetal articulada e construída de realismo que ilude o olhar desatento, pode até provocar um toque indesejado pelo receptor. O platô do Chapadão, proposto ainda no primeiro plano, tem um dimensão minúscula, porém de uma força imagética, provocada pela iluminação e pela cor que atrai o olhar diretamente a ele. A nesga do branco sobre o terroso do elevado alonga a paisagem e ajuda no ilusório fingimento da perpectiva. Sonha-se antes de vislumbrar a possibilidade do real Na obra, o Rio Paciência que corta a vegetação do cerrado, apesar do nome, denuncia o declive do terreno da Chapada dos Guimarães, o movimento das bolhas
criados pelas águas no centro do suporte coloca o obervador dentro da paisagem. A água e a iluminação por baixo e entre as folhagens criam uma sensação de frescor e umidade que constrata com o calor de 40 graus da região centro oeste. Neste ato, o artista delata seu contexto e o seu envolvimento com o natural, pois a natureza o seduz e o pretexto inicial que o modelo suscinta não limita o poder de criação artística, mas corrobora o que apregoa Ribon (1991, p.18), na eterna discurssão: “ se a arte é o artista que vê, concebe e imagina e o gesto que executa e recria”, numa simbiose constante que metamorfoseia a imagem inicial do modelo eleito, abrindo para novas imagens e para a criação de novos mundos.

 

Miguel com seu olhar cultural provoca novas novas sensações criando mundos imaginários como se fossem reais. O Cerrado de cor quente que ele apresenta tem uma força expressiva de viagem mental imaginário ou real sabe se lá. O que importa é que o realismo sugestivo das cores quentes entremeadas ao movimento do capim no coloca em xeque-mate quanto a não existência “real” da cena chapadense, que ele elegeu.

 

O cupim no tronco do ipê atrelado aos detalhes da camada de cortiça que reveste esta e as demais árvores fortalecem a minha hipótese.

 

Miguel que percorreu vários recônditos da paisagem - natural ou construída - do Estado criou um repertório próprio ao selecionar cenas que afloram em momentos perceptivos e propícios à sua necessidade. Nesse seu olhar de rapina que percorreu a região já esteja traduzido o caráter de cultura na acepção dessa paidagem.

 

Não se pode deixar de lado, ou abandonar, os meandros onde se dá a construção mental, ou seja, o fundamento ato
de cultura que determina a paisagem.

 

O artista ao se permitir a um tipo de desejo ou eleger esta ou aquela forma de pintura se compromete socialmente quando a coloca em público. O seu olhar delator se manisfesta no ato da criação.

 

Não se trata de um mero olhar. mas de um olhar social, politico, economico e estético que se contrói gradativamente através da
carga cultural que nos é iimpingida pelo processo histórico. Acreditamos na paisagem como resultado de um olhar cultural, ou seja o sujeito que olha é um sujeito coletivo, parte de uma sociedade que tem uma história, e de um meio visto como a paisagem/natureza.

 

Nas obras a Mata Amazônica assume a magnitude de floresta intocada mesmo permeando o limiar de ser apenas a extensão geográfica da famosa paisagem, pelo pertencimento à Amazônia Legal, da qual fazemos parte, não empobrece, pelo contrário, enriquece a obra em detalhe que só neste intermezzo é possível perceber. Na obra, a presença de palmeiras oriundas do cerrado e árvores retorcidas configura esta contaminação e proximidade.

 

Uma névoa que se movimenta e cobre o interior da paisagem configura o choque térmico em áreas, porém não nos permite visualizar a presença da água abaixo dela.

 

 

Serafim Bertoloto Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte ABCA. Possui graduação em Licenciatura e Bacharel em História pela Universidade Federal de Mato Grosso (1985), graduação em Tecnólogo em Bovinocultura pela Universidade Federal de Mato Grosso (1980), mestrado em Artes pela Universidade
de São Paulo (1992), especialização em Museu de Arte pelo MAC-USP (1998) e doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2003). É professor titular da Universidade de Cuiabá e pesquisador, curador e Diretor do Museu de Arte e de Cultura Popular da Universidade
Federal de Mato Grosso. Professor Orientador no program de Mestrado em Estudo de Cultura Contemporânea ECCO/UFMT. Artista Plástico com vasta experiência na área de Artes, com ênfase em teoria e crítica, atuando principalmente nos seguintes temas: artes visuais, cultura popular, semiótica da arte e do
design em Mato Grosso

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